Antónia Rodrigues - a Heroína Aveirense

24-10-2020 171 Visualizações Património, Imaterial

 

Antónia Rodrigues - uma heroína de Aveiro

 

Chamada também de Antónia de Aveiro, Antónia Rodrigues não foi apenas uma notabilidade da terra de Aveiro mas também uma celebridade de Portugal, fazendo a admiração de nacionais e estrangeiros. Mesmo com diversas opiniões, é comummente aceite a data de 31 março de 1580 como data do seu nascimento. Era filha das gentes da Beira-Mar, Simão Rodrigues Mareares e Leonor Dias, que viviam na freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, da vila de Aveiro. De seu pai, marinheiro, consta que realizou viagens à Terra Nova, sendo na altura a Barra de Aveiro local de saída de inúmeras embarcações com a finalidade da pesca do bacalhau. Talvez por algumas contrariedades e\ou doenças os seus pais viram-se obrigados a enviar esta filha para Lisboa, então com 11 anos, onde haveria de viver com uma irmã, que se encontrava lá casada e em melhores condições.

 

Pouco depois, já em Lisboa, manisfestou um génio altivo e impróprio para a idade, repugnando-lhe os trabalhos domésticos da altura, próprios do seu género. A sua irmã e cunhado admoestavam-na, sendo constantes os ralhetes e as ameaças de a enviarem novamente para Aveiro. Por tudo isso, Antónia fugia com regularidade de casa. Quando procurada, deixava-se encontrar na Praça da Ribeira a olhar os navios ancorados, conversando com marinheiros e manisfestando a mágoa de não ter nascido homem, para, com eles, seguir viagem e vidas aventureiras por novos horizontes. Chamavam-na louca e por vezes, visionária.

 

Certo dia, saiu e sentada a baixo do tejo meditou e tomou uma resolução. Às ocultas, foi vendendo a sua pouca roupae trocando por outra, própria do sexo masculino. Juntou algum, pouco dinheiro e tratou de indagar se algum navio estava preparado para a próxima viagem. Ouvi dizer, pelos marinheiros, que, em breve, partiria uma caravela para Mazagão. Ao saber do nome da caravela - "Nossa Senhora do Socorro" - decidiu pôr em prática a sua resolução, esperando que o socorro da Virgem fosse o seu amparo no heróico passo que iria arriscar. Antónia Rodrigues tinha então apenas 15 anos.

 

Antonia Rodrigues

 

Antónia Rodrigues era formosa e elegante e possuidora de longos cabelos pretos. Não se desvinado do seu almejo, ela própria cortou os seus cabelos e vestida com as roupas masculinas apresentou-se ao capitão da caravela, pedindo que a aceitasse com ajudante e sem remuneração. Sem experiência nos trabalhos marítimos não foi fácil convencer o capitão, tendo a audácia de reforçar a sua sabedoria em adubadas sopas. O capitão aceitou-o para o serviço. E assim, Antónia Rodrigues entrou para a caravela sem que ninguém suspeitasse do verdadeiro sexo.

 

Saiu a embarcação e daquele inexperiente ajudante ficou a memória do quão ágil treparava aos mastros, sem receio de cair com as oscilações e marés. Sem incidente notável a caravela entrou em Mazagão, e se despedindo do capitão preferiu entrar em novas aventuras. O capitão estimava o ajudante e afirmava que viria a ser um grande naútico, mas Antónia Rodrigues não quis voltar na mesma caravela e em seguida tratou de alistar-se como simples soldado. O governador aceitou tal proposta, também pela necessidade de apoio nas batalhas que aí se desenrolavam. Mazagão, localizada no imperío de Marrocos pertenceu desde 1502* aos portugueses que aí fortificaram e a ocuparam militarmente.

 

O jovem "Antónia Rodrigues" sempre hábil no manejo das armas soube, certa vez, que os mouros pretendiam fazer uma surpresa destruindo os campos mais próximos e as colheitas quase maduras. Animado pelo ensejo de alcançar mais glória pediu ao governador que lhe entregasse um troço de tropas para combater os mouros. Quando os mouros menos esperavam, aparece o jovem militar com a sua tropa que tão bem comandados e com tanta valentia feriram os mouros obrigando-os a recuar envergonhados. Antónia Rodrigues entrou, assim, em Mazagão ouvindo as aclamações de vitória e recebendo os maiores elogios.

 

Por este feito foi elevado a oficial sendo mudado para a cavalaria. Se até aí demonstrava grande domínio nas armas conseguiu, rapidamente, domesticar cavalos que outros militares consideravam indomáveis, pois enquanto fora simples soldado divertia-se nas folgas com os cavalos, também para se ausentar dos demais e assim ninguém supor que tinha ao seu lado uma donzela.

 

Com tantos méritos e reconhecidos louveres foram várias as "damas" que se apaixonaram por Antónia Rodrigues, sendo a mais notável, D. Beatriz de Meneses, filha de D. Diogo de Mendonça, um dos principais fidalgos, dos que viviam em Mazagão. D. Diogo, entendendo-se com o Governador, convenceu-o de que a filha teria de desposar Antónia Rodrigues. Quando chamada à presença do Governador para tal notícia, Antónia Rodrigues corou, chorou, tremeu e perdeu completamente a coragem. O Governador estranhou tal comportamente com a proposta que muitos a desejariam, ordenou resposta pronta. Antónia Rodrigues, chorando como uma criança comprometida, ergueu as mãos e entre soluços declarou que não era homem. Contou toda a sua história e pediu que não a castigassem.

 

O Governador fez logo espalhar a notícia, e Antónia Rodrigues já vestida de mulher foi levada pelas ruas de Mazagão, ouvindo as aclamações do povo, que lhe dava o epíteto de cavaleira aveirense. No imediato, como era formosa e inteligente, não faltaram pretendentes que a desejassem para esposa, tendo Antónia Rodrigues escolhido um brioso oficial, cujo nome se ignora.

 

Com trinta e cinco anos voltou para Portugal na companhia do marida e de um filho ainda pequeno. El-Rei Filipe II, então em Lisboa quis logo conhecê-la e assim lhe foi apresentada Antónia Rodrigues. O monarca recebeu a célebre heroína dando-lhe rendimentos anuais, possibilidade de viver na corte e o título de moça da Real Câmara ao seu filho.

 

E assim se fez a história da Heroína Aveirense - Antónia Rodrigues...

 

*Mazagão apenas deixou de ser domínio português em 1769, tenso sido abandonada e deixada aos mouros.

Para saber mais:
Rangel de Quadros - Aveirenses Notáveis (p. 113-118)

Livro "A Amazona Portuguesa" de Mário Silva Carvalho


A amazona portuguesa


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